Capítulo 2 – Dez Anos em Duas Rédeas: Da Escolinha ao Campeão

“Caí muitas vezes. Levantei mais ainda. Porque o que o cavalo me dava… era mais que dor ou medo: era liberdade e um prazer de estar viva”

Comecei no hipismo como quem só queria ocupar o tempo. Mas, sem perceber, fui sendo puxada pelas rédeas de um universo que transformaria minha vida para sempre.

No início, era tudo novo. Os cavalos da escolinha tinham nomes simpáticos e um temperamento bem mais firme do que seus olhos doces faziam parecer. Montar era um desafio diário. Aprender a usar as pernas, as mãos, o corpo, tudo virava um comando sutil, estava aprendendo a comunicação entre cavaleiro e cavalo. Tudo precisava estar tinha que estar em sintonia. Era cansativo, repetitivo, cheio de detalhes técnicos que me deixavam, às vezes, exausta, mas sem explicação, cada vez mais apaixonada pelo cavalo

O primeiro salto, o primeiro tombo… e a primeira paixão

No hipismo, o salto é mais do que um movimento. É emoção pura em segundos, ou o controle dela. A aproximação, o impulso, o voo e o toque no chão, tudo muito bem posicionada e milimetricamente calculado. Eu comecei do básico, saltando cruzetas, obstáculos em “X”, e fui subindo degrau por degrau até chegar nos 80cm.

Não era alto. Mas era o suficiente para sentir que eu voava.

Claro, teve tombos. Muitos. Quedas que me deixaram sem fôlego, cheia de hematomas e, em uma delas, com uma costela trincada, que lembro dela todo dia frio. O tipo de dor que faz a gente repensar tudo. Só que eu não repensei. Eu só quis voltar mais forte.

Porque nenhum machucado superava o que eu sentia no ar, com o cavalo sob mim — os dois em total confiança, em total entrega, uma sintonia maravilhosa.

Os dias na hípica

Durante esses anos, vivi mais na hípica do que em casa. Cada manhã começava com o cheiro do feno, da terra molhada, dos pelos úmidos. O som dos cascos nos corredores, do arrebento dos saltos, da voz firme dos instrutores.

Eu era disciplinada. Não porque alguém me obrigava, mas porque ali, montada, eu me encontrava e se não fosse cairia mais vez.

Teve lágrimas, frustrações, provas que não deram certo, cavalo que não quis saltar, noites sem dormir pensando no percurso. Mas também teve aplauso, superação, momentos únicos de sintonia com o animal.

E foi então que uma nova fase chegou. A mais bonita, talvez.

Victor Método: meu cavalo, meu mestre

Depois de muitos anos montando cavalos de escola, chegou o momento de ter o meu. E ele não era qualquer cavalo.

Victor Método. O nome já tinha peso. Campeão Brasileiro em 2008, um verdadeiro gigante das pistas. Um cavalo com alma de rei e olhos de quem já viu o mundo. E não é exagero: depois do título, Victor representou o Brasil em um campeonato mundial na Alemanha. Carregava em sua história quilômetros de glória, técnica refinada e uma elegância que impressionava até quem não entendia de hipismo.

Ele tinha 17 anos quando chegou pra mim , maduro, preciso, pleno. Como bom virginiano não aceitava erros e por isso foi um excelente professor. Ele não precisava aprender mais nada.
Mas estava pronto para me ensinar tudo.

Victor me levou a um outro patamar. Ao lado dele, aprendi o que é realmente montar: sentir cada passada, entender o silêncio entre as ordens, ajustar meu ritmo ao dele. Cada treino era uma aula. Cada salto, uma sinfonia a dois.

Estar com Victor era como conversar com alguém que já viveu muito, ele não gritava, apenas sugeria. Me dizia com o corpo o que eu precisava saber. E eu aprendi a escutar. aprendi a montar de verdade.


E assim passaram-se dez anos…

De uma aula experimental despretensiosa à convivência com um campeão mundial. Foram dez anos de entrega, dedicação, quedas, saltos, lágrimas, troféus invisíveis e uma certeza: o hipismo me formou. Como atleta, como mulher, como ser humano.

Hoje, cada vez que vejo um cavalo, não vejo só um animal. Vejo um mestre silencioso, que me ensinou tudo sobre equilíbrio, coragem, paciência, humildade e força.

Victor foi o ápice de uma década. Mas cada cavalo da escolinha teve seu papel. Cada tombo deixou sua marca. E cada salto me ensinou que os maiores voos da vida não têm asas — têm cascos.